Arquétipos, mitos e personagens
Ok, não vou negar. O mito do herói é o meu tema favorito de todos os tempos. Acima de zumbis, acima de viagem no tempo, acima da aliança rebelde em Guerra nas Estrelas, acima até de Tolkien. Eu gosto tanto do mito do herói que fiz uma tatuagem representando essa história.
Eu considero o mito do herói um assunto importantíssimo para o RPG de fantasia, já que é em volta de um grupo de heróis que a história gira.
Então, depois de comentar sobre o Herói de Mil Faces, vou me aprofundar um pouquinho no tema, analisando os oito principais arquétipos do herói, que servem como modelos e fontes de idéias para que os jogadores possam desenvolver mais a personalidade de seus PCs, além de arquétipos daqueles que com o herói se relaciona, servindo como um pequeno guia de onde o DM pode tirar idéias para seus NPCs.
Herói: A essência do herói não é a nobreza ou a bravura, mas sim o sacrifício. O herói mitológico é aquele que passará pela separação e por adversidades pelo bem daqueles que preza. O herói é aquele que tem um preço a pagar para atingir seus objetivos.
A jornada do herói durante uma história é uma trilha que parte do ego, daquilo que o herói era antes de decidir empunhar a sua espada, para uma nova identidade, que surgiu e cresceu para incluir as experiências que passou durante a história. Essa trilha geralmente consiste na separação da família ou grupo para um mundo novo, estranho e desafiador e, finalmente, em um retorno para o mundo “comum”, porém expandido.
O herói precisa aprender para que possa crescer. Geralmente o ponto principal de uma história não são os obstáculos que o herói enfrenta, mas sim da sabedoria que ele adquire, seja de um mentor, de uma amante ou mesmo do vilão.
Outros personagens além do protagonista podem possuir qualidades heróicas. Isso pode ser particularmente verdadeiro no caso do antagonista.
Heróis podem ser prestativos e bravos, ou relutantes. Eles podem possuir um forte elo familiar ou para com um grupo, ou mesmo serem solitários. Eles podem crescer e mudar por si só, ou agir como um catalisador para que outros possam crescer e se tornar heróis. Um herói pode ser um inocente, um andarilho, um mártir, um guerreiro, um destruidor vingativo, um ditador ou mesmo um tolo. Mas a essência do herói é o sacrifício que ele tem que fazer para atingir seu objetivo.
Dentro dessa idéia básica do herói, podemos distinguir oito arquétipos básicos:
O Líder: Este é o herói alfa quintessencial. O líder nato ou o conquistador. Ele é durão, decisivo e determinado. Ele pode ser intransigente e inflexível, e seu mote é “Faça algo ou saia do caminho!”. O Líder não admite seus erros, talvez por não admitir que não haja uma escapatória. Exemplo: Capitão Kirk, na série clássica de Jornada nas Estrelas.
O Rebelde: É aquele que age na contramão. Ele pode ser sarcástico e volátil, ou mesmo idealista, mas ele é carismático e sabe se virar. Ele não se dá bem com autoridade e não se curva perante ninguém, e, por isso, geralmente escolhe trabalhos onde ele é seu próprio chefe. Exemplo: Han Solo, na trilogia clássica de Guerra nas Estrelas.
O Melhor amigo: Este é conhecido como herói beta, é aquele que está sempre ao lado de outro herói. Ele é determinado, responsável e fiel. Ele geralmente evita confrontos diretos, mas ele sempre estará lá, não importa o quão horrível seja o problema que seu amigo deve enfrentar. Exemplo: Samwise Gamgee, em O Senhor dos Anéis.
O Encantador: Divertido, irresistível, sabe lidar com todas as situações, porém não é necessariamente responsável ou confiável. Ele é matreiro e não costuma assumir compromissos facilmente. Geralmente é um mercenário, que se coloca à disposição para aventuras – desde que não muito perigosas. Exemplo: Zaphod Beeblebrox, em O Guia do Mochileiro das Galáxias.
A Alma perdida: Este homem é torturado, misterioso e imperdoável. Mas também é vulnerável. Ele pode ser um andarilho ou um excluído. É um personagem criativo, mas provavelmente solitário. Exemplo: Hamlet, de Shakespeare.
O Professor: À primeira vista, este personagem pode não se enquadrar na idéia básica de um herói. Lógico, introvertido e inflexível. Mas ele é sincero, honesto e leal. Lida de maneira fria e analítica com as situações com que se defronta. Exemplo: Sr. Spock, na série clássica de Jornada nas Estrelas.
O Ousado: Ação, ação e ação. É tudo o que esse herói busca. Ele é ousado, bravo e explorador, às vezes até inconseqüente. Ele se aventura pela emoção e pelo perigo. Exemplo: Capitão Jack Sparrow, em Piratas do Caribe.
O Guerreiro: Ele é o herói relutante, o cavaleiro na armadura brilhante. Ele é nobre, bravo e humilde. É um protetor nato e, como tal, o seu foco é o resgate da princesa no castelo do feiticeiro maligno. Exemplo: Rei Artur Pendragon.
Depois de analisar os oito arquétipos básicos do herói mitológico, vamos dar uma passada rápida naqueles que cercam o herói:
O Mentor: O Mentor é um personagem que ajuda ou treina o herói. A essência do mentor é o velho sábio, que representa a sabedoria e as qualidades divinas do herói.
Outro papel importante que o mentor desempenha é o de equipar o herói, dando a ele itens que serão importantes na sua busca. Esses itens podem ser armas, informações, magias, etc. Freqüentemente o mentor exige que o herói passe por uma espécie de teste antes de receber o item. Muitas vezes esse item parece ser um objeto insignificante e a sua importância só aparecerá no decorrer da jornada.
O mentor pode ocasionalmente ser a consciência do herói, colocando-o de volta na trilha certa quando este se desvia de seu caminho ou quando sua vontade enfraquece. É claro que nem sempre o herói aprecia esse tipo de assistência.
O Guardião do limiar: O guardião do limiar é o primeiro obstáculo que o herói encontra em sua jornada. O limiar é o portal para o novo mundo no qual o herói deve entrar para mudar e crescer.
O guardião do limiar geralmente não é o antagonista da história. Apenas depois de superar esse teste inicial que o herói irá se deparar face a face com o verdadeiro desafio e o arquiinimigo. Freqüentemente o guardião do limiar é um servo do antagonista.
Entretanto, muitas vezes o guardião do limiar se apresenta como um personagem neutro ou até mesmo um aliado em potencial, como por exemplo o Leão Covarde que, inicialmente assusta Dorothy, mas depois se junta a ela em sua jornada até Oz.
O papel do guardião do limiar é testar a força e o merecimento do herói para iniciar a sua jornada e para demonstrar que essa jornada não sera fácil. O herói irá se deparar com o guardião do limiar logo no começo da história, geralmente logo que começa a sua busca.
O Arauto: O papel do arauto é anunciar o desafio que coloca o herói em sua jornada. O arauto é a pessoa ou informação que perturba o equilíbrio e a tranquilidade na qual o herói vivia e inicia a aventura.
O arauto não precisa ser uma pessoa. Pode ser também um evento, como uma guerra, um objeto, como um anel mágico ou até mesmo uma carta.
O Metamorfo: O metamorfo muda de papel e de personalidade, muitas vezes de forma significativa e é difícil de ser compreendido. Essa mutabilidade é a essência deste arquétipo. A lealdade e as alianças do metamorfo são incertas e a sinceridade de suas declarações são questionáveis.
O metamorfo geralmente é uma pessoa do sexo oposto ao do herói e geralmente se torna o interesse romãntico deste. Mas também o metamorfo pode ser um amigo ou aliado do mesmo sexo, muitas vezes um amigo ou uma figura mágica, como um xamã ou um mago.
O metamorfo age como um catalisador cuja natureza mutante força a mudança no herói, mas seu papel tradicional é o de trazer suspense à história ao forçar o herói a questionar suas crenças e conclusões.
Como em muitos outros arquétipos, qualquer personagem, incluindo o protagonista e o antagonista, pode assumir a qualidade de metamorfo em pontos diferentes da história. O herói muitas vezes assume esse papel para supercar um obstáculo, mas geralmente o papel do metamorfo é ocupado pelo mentor do herói.
A Sombra: A sombra é uma figura negativa, representando as coisas que não gostamos e gostaríamos de eliminar.
Geralmente a sombra toma a forma do antagonista da história. Mas nem todos antagonistas são vilões; às vezes o antagonista é um personagem bondoso cujos objetivos são conflitantes com os do protagonista. Porém, se o antagonista é um vilão, ele é uma sombra.
A sombra é o grande oponente com quem o herói deve se deparar. Em um conflito entre o herói e o vilão, a luta é até o fim, na qual um dos dois será destruído ao final.
Apesar de ser a força negativa da história, é importante lembrar que nenhum homem é um vilão sob seu ponto de vista. Na verdade, a sombra geralmente vê a si mesma como a heroína e o herói como o seu vilão.
O Trapaceiro: O trapaceiro é um palhaço, um causador de problemas. Ele dá o alívio cômico que uma história muitas vezes precisa para aliviar uma tensão dramática. O trapaceiro mantém as coisas em suas devidas proporções.
O trapaceiro pode ser um aliado ou companheiro do herói, ou pode trabalhar para o vilão. Às vezes o trapaceiro pode ser até o próprio herói ou o vilão. Em qualquer dos papéis, o trapaceiro geralmente representa a força da perspicácia, desprezando oponentes que se apresentam como mais fortes ou mais poderosos.

Cara muito legal essa materia, SOu mestre de Rpg a muitos anos, e achei muito util. Parabens